sábado, 19 de janeiro de 2008

Horizonte particular


Feliz a senhora da floresta
Em seu horizonte particular
Deve chegar ao infinito
Sem um ínfimo piscar

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Pra esse canto do mundo


Pra esse canto do mundo...

Onde cor é mais cor
O negro profundo das águas
esconde dos filhos a dor

Pra esse canto do mundo...

Mais um desses brasis
Minorias se curvam
Aos caprichos de homens vis

Pra esse canto do mundo...

Em que barco virá
esperança e justiça
pra gente de lá

Pra esse canto ‘desmundo’...
Sem olhos imundos
Quando se olhará?

Mirim de mim


Mirim de mim
O vocabulário sem abstratos
Não limita expressão
Nos olhos pequenos e nos sorrisos careados
Graças e risos sem muita explicação

Os convites para o banho
Inspirava inibição
Eu que fiz, na 4ª série, aula de natação
Curiosidades engraçadas
Cabelo, pele, pêlo,
jeitos e seios
Mãozinhas apalpavam
procurando compreensão

Curumim e Cunhatain
Com ares de apgáua e de cunhã
Entre todas as culturais diferenças
Só me chamavam: “Irmã”


Observações:
Da língua geral, nhengatu
Curumim e Cunhatain: menino e menina
Apgáua e Cunhã: homem e mulher

As Cachoeiras do Santo Gabriel


"Saúdo a todos, com ares de festa, com vinho de pupunha, com beijú e kiampira e um peixe bem muquiado. Envio meus sinais de fumaça de que retornei e quase intacta. Grata aos que vibraram. Entre piolhos já exterminados, queimaduras negligentemente cuidadas, picadas de origem anfibológica, vômitos e diarréias (sobre os quais seria dificil poetizar) sobrou ainda mais disposição para descobrir mundos novos, dentro e fora de mim. Katehe naka. Katehe xita. Estou de volta! Com os mesmos 20 e poucos anos e a bagagem um pouco mais pesada. "


As Cachoeiras do Santo Gabriel

São mais de cinco os mercenários, donos da cidadela
E mais de três os bêbados cristãos ordenados
Mais de nove os políticos endinheirados
São quarenta mil cento e trinta e sete¹ os explorados

São vinte e três as etnias
Imensuráveis as riquezas linguísticas
Que nas bocas opacas e oprimidas
Se convertem em palavras mínguas

O caos urbano

de um desregrado crescimento
Faz a ‘Bela’² continuar dormindo
De tanto acanhamento

Fome, dor, suicídio
Perspectiva, subjulgamento, omissão
51 é pra dar sentido
Ao que esfarinhou o coração

(O)Brigada Infantaria de Selva
Que à fronteira traz proteção
Pelo suor, pelo trabalho,

Colômbia!
Pelas promessas e prostituição

A mais indígena das cidades brasileiras
Tem Maria, tem Joana e Edivanson
São tukanos, barés, banivas
--“Me chamo Cacique Henrique de Almeida³”

O xibé e o tabaco
Adiam o ronco do estômago, dolorido
Indigesta realidade manauara
Na minha barriga de branca bem alimentada


Observações:
¹ IBGE 2007
²"Bela Adormecida" - De São Gabriel da Cachoeira, avista-se a Serra de Curicuriari. Foi apelidada com o nome da fábula infantil por suas formas parecerem a de uma mulher deitada e dormindo.
³ Nomes reais, assim como os personagens do primeiro verso.